Não Emigrem!

Merkel acredita em mercado de trabalho europeu único

Um jornalista holandês perguntou-me, em tom de desafio, se fosse holandesa, se também defenderia a suspensão da dívida no sul. Claro, respondi-lhe, se a pagarmos é porque o valor da força de trabalho desceu tanto no sul que acabarão por emigrar para o norte e 1) ou tirar-vos os postos de trabalho ou 2)ser uma pressão objectiva para vos obrigar a aceitar salários mais baixos para não perderem para nós os postos de trabalho.

A  crise da dívida, se não tiver uma resposta de confronto social, vai precarizar os trabalhadores do sul, que agora não são beirões ou alentejanos com a 2ª classe mas mão de obra altamente formada e produtiva, que vão ser a pressão sobre os do norte para aceitarem salários baixos. Disse-lhe que isso chama-se «a criação de um mercado de trabalho na Europa». Da mesma forma que se usaram os desempregados e os precários para descer os salários dos trabalhadores com contratos e reformados vai-se usar o contingente de precários do sul para fazer descer os salários dos do norte. Merkel disse-o hoje com todas as letras.

Fica o incentivo de Merkel e o meu modesto aviso. Programas como os «portugueses lá fora» foram cuidadosamente seleccionados para incentivar a emigração. Estive na minha vida em algumas dezenas de conferências de trabalho migrante, em países ricos e pobres, com ou sem escolaridade, e é um calvário. Um penoso caminho que enfrenta baixos salários, discriminação, competição, xenofobia e, claro, saudades, muitas saudades. Comum nos estudos da emigração é que quase «todos querem voltar». O emigrante, médio, formado ou não, não tem nem boas condições de vida nem é feliz, porque partiu expulso do seu país. Quem emigra para ganhar 4 vezes mais vai gastar 4 vezes mais e o seu salário não será o do português feliz no estrangeiro a enviar divisas mas, na minha opinião, um salário de subsistência. Em Londres não vão jantar fora peixe grelhado, nem em Berlim vão à praia (lago) dar um mergulho porque salário não é aquilo que se recebe ao fim do mês mas o que se consegue fazer com o que se recebe no fim do mês, isto é, salário social, salário família (apoios da família não só em dinheiro mas em espécie,  ajuda a cuidar de filhos e netos, etc), salário real (poder comprar peixe ou legumes), ter dinheiro para se deslocar na cidade, no país, ter uma imensa rede de solidariedade social e familiar, tudo isso é salário. Ver o sol e o Tejo, o Douro, o oceano, sorrir ao lado dos amigos, ver crescer os irmãos, isso também é salário.

Emigrar não é uma saída, a saída é perceber que não há saída enquanto o governo for assente na política de acumulação por elevação das dívidas públicas, destruição do Estado social e construção do salário nacional de subsistência, o tal com que Merkel sonha para partir a espinha aos seus sindicatos.

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24 Responses to Não Emigrem!

  1. De says:

    Um bom post

  2. JgMenos says:

    «são beirões ou alentejanos com a 2ª classe mas mão de obra altamente formada e produtiva»!
    beirões e alentejanos com a 2ª classe – era gente de trabalho,
    altamente formada – custaram altamente mas quanto a formação: uma minoria
    e produtiva – não se tem visto nem se vislumbra; mas talvez aconteça se emigrados na Holanda, longe das musas que de trabalho só falam para ilustrar o conceito de exploração.

    • De says:

      Já não há pachorra:
      “que agora NÃO são beirões ou alentejanos com a 2ª classe mas mão de obra altamente formada e produtiva”

      • Zuruspa says:

        Mas ainda dás trela a esse sabujo rastejante do Menos?
        Ele sabe bem o que é “de trabalho só falam”, que ele nunca mexeu uma palha, além de teclar em blogues de esquerda.

      • JgMenos says:

        És um tosco, que dizes saber do que nada sabes.
        E como é de regra nos da tua laia, à mensagem reages com o insulto ao mensageiro.

    • Um dia ainda te vou ver a rastejar nas ruas e à procura de comida no lixo e ai cuspo-te na cara e passo-te por cima.

  3. Rafael Ortega says:

    Agradeço o conselho, mas não me convence a ficar.

    Da corrupção, desorganização e caciquismo não vou ter saudades. Para o resto há internet, correio e easyjet. 😉

  4. mco says:

    Gostei de ler. Uma abordagem inteligente sem tiques partidarios autistas.

    • Rui Nunes says:

      Já era tempo de parar de usar problemas sérios de saúde como exemplos negativos por hipérbole. Isso sim, é “tique”, do diálogo pouco esclarecido que se ouve na assembleia da república e popularizado por partidários diversos que não respeitam o artigo 13º da Constituição.

      • mco says:

        ???? 🙂 pouco que fazer hum

      • mco says:

        E Rui, leia a constituicao antes de escrever frases sem sentido. O uso de hiperboles faz parte da natureza dalingua portuguesa. O problema e’ quando estas sao usadas para nao dizer nada ou apenas para usar como arma de arremeco.
        O dialogo pouco exclarecido de que me acusa revela o seu total desconhecimento das minhas ideias e o tipo de discurso que se ouve na AR e’ realmente um problema grave, responsabilidade de todos no’s, mas ao ir buscar esse argumento parece que me esta’ a dar razao.
        Nao sei… E’ o que parece.

  5. correiajose says:

    Já vem tarde, já ando pela Holanda a tentar “roubar” um trabalho a um nativo!

  6. M says:

    Gostei do post! Eu não quero baixar os braços, não quero desistir do meu país e principalmente não quero desistir de mim e dos meus. Acompanhar os meus avós nos seus últimos anos não consegue ser pago por salário nenhum no mundo. Chamem-me sonhadora mas gosto mais de mim Feliz do que de mim infeliz longe de casa com os bolsos mais recheados.

  7. Serrano says:

    Ok, está certo que o nosso país tem as suas coisas boas, sim é vdd, mas tal como disse Rafael Ortega “Da corrupção, desorganização e caciquismo não vou ter saudades. Para o resto há internet, correio e easyjet.”, para não falar que no dia em que se pretende alargar a família, só se é possível fazê-lo com 2 salários, e tendo em conta os tempos em k vivemos, essa sim é a verdadeira aventura!! Porque na vida nem tudo é um mar de rosas, existem divorcios conjugais ou profissionais, e é nisto que ascende o verdadeiro desafio de se criar alguém nas devidas condições (com um acesso exclusivo na sua totalidade a todas as áreas da educação, saúde, e ainda atividades extra-curriculares). Então surge a pergunta: Se é possível educar com essas condições, sem que o progenitor faça GRANDES sacríficios?? Isto calculado a um salário de 600 €, e já nem digo o salário mínimo! E já que estou a falar do processo educativo, no dia que essa criança perguntar “O que serei no futuro?”, que hipóteses vamos formular? Depois a criança pensa e diz “Gostava de ser biólogo, arqueólogo ou violinista”… E pronto, é nesta altura que metemos as mãos na cabeça! E surge outro problema que é: ou emigra para poder seguir com o seu sonho, ou conheçe padrinhos (é assim que a coisa funciona por cá…), ou então vai-se lamentar para o resto da vida não ter saído do país que além de lhe fechar a janela de opções, fecha a janela de oportunidades, sem falar dos anti-corpos sociais (aqueles que têm poder e tudo fazem para eleminar a progressão de potenciais ameaças ao seu sistema), e então, o ciclo de lamentações continua por mais uma geração… A evolução provocou emigrações em massa, os organismos que o fizeram, adaptaram-se, sobreviveram… Mas pronto, em relação ao texto, é uma boa visão da atualidade, pois tem que haver um paradoxo para cada ideia.

  8. nina luz says:

    Pelo teor de alguns comentários, parece-me continuar a existir em Portugal uma certa ilusão que ‘lá fora é que é bom’. O problema é que ‘cá fora’ não é bom. Cá fora também há desemprego mesmo para os formados. Se trabalhadores migrantes são preferidos, formados ou não, não é pelos lindos olhos castanhos ou porque receberam uma educação mais esmerada ou de maior qualidade. Se é isso que acham, desenganem-se. É porque são mais baratos.
    Para além de que ‘cá fora’ os ares no cimo da torre também são rarefeitos, e povoados de privilegiados. Talvez a Raquel tenha números para citar: quantos dos emigrados com formação universitária ocuparão os cargos hierárquicos que (sonham eles) lhes proporcionem o rendimento que julgam vir usufruir?
    E quando chegarem, vão integrar-se totalmente na sociedade de acolhimento, ou vão integrar-se nas sociedades de diáspora? É que até isso muda as coisas, as oportunidades, as experiências.
    E estão preparados para a xenofobia, para a descriminação e para a marginalização? (É que a há até no interior das comunidades nacionais). E estão preparados para os efeitos psicológicos de viver rodeados, de modo permanente e prolongado, não só de uma realidade desconhecida, mas de uma língua alheia (por mais fluente que se seja)? Estão preparados para as semanas de 50 horas, 60 horas ou mais? E não, não falo de operariado, falo de quadros, de profissionais.
    E julgam que o custo de vida é o mesmo que em Portugal? Que se conseguirem vir ganhar quatro vezes mais ao fim de uma semana de 50 horas em que se vive como um autómato desumanizado, que o salário vai chegar?
    É. Para o resto há a internet e a easyjet. Experimentem, então, e depois venham contar-me em que é que a vossa experiência diferiu dos meus vinte anos. Digam-me, por exemplo, como é que a internet ou a easyjet lhes darão o abraço ou a festa na cabeça ou a palmada nas costas ou o jantar na mesa dos pais quando o dia for tão duro que mexe com a cabeça e o coração. Ou em que é que a internet ajuda, ou a easyjet, quando o avô ou o pai forem internados de urgência, e morrerem antes que o patrão autorize a ausência e que um voo que se ponha de acordo com o saldo bancário se materialize. Ou sera que querem também vir viver vida de cartão de plástico? Abram os olhos, e não emigrem. Ou então, se vos falta comer suficiente pão e querem aprender a vida pelo duro, venham. Mas não se queixem depois que o sonho saiu chocho, e não foi isso que lhes prometeram.

    Raquel, obrigada por uma das análises mais interessantes que já li sobre o assunto. É que é exactamente isso que está a acontecer pela Europa fora: os sucessivos contingentes de migrantes altamente especializados não estão a gerar mais valia, mas a desvalorizar o trabalho em si, e o mercado de trabalho: se podem empregar um licenciado de uma qualquer periferia económica pelo preço da chuva corrente, por que diacho irão as entidades patronais pagar mais para empregar seja quem for, cidacão nacional, migrante, imigrado ou não?
    E é assim que acabamos todos, todos, a trabalhar por amendoins e pelo ar que respiramos, e com o único objectivo de gerarmos mais trabalho (=lucro) para os nossos empregadores. E a realidade no El Dorado do estrangeiro é exactamente essa, para a maioria das pessoas.

    • Rafael Ortega says:

      Tenho pena que se sinta assim.

      Mas não posso com este país.

      Prefiro ir, correndo o risco de vir a sentir-me da forma que descreve, do que ficar e estar a vida toda a pensar no que poderia ter sido diferente se fosse embora.

    • JgMenos says:

      «…e querem aprender a vida pelo duro, venham.»
      Como imagino que não me está a falar da China ou do Bangladesh, tenho o seu comentário como da maior utilidade, uma vez que importa fazer entender a este coro tão choroso que:
      – o trabalho´duro é a condição de emprego quer nos países pobres quer nos ricos.
      – o Portugal de Abril foi um interregno nessa permanente realidade, e desse interregno sobrou uma conta para pagar.

  9. Serrano says:

    Ok essa perspetiva está correta também, no entanto não podemos generalizar isso a uma taxa de insucesso garantido, de forma a que se veja a emigração=insucesso. É certo que vemos uma grande taxa de pessoas que decidem regressar ao fim de algum tempo pelo plano sair furado, mas o que é certo é que também vemos muitas (ao contrário de outros que passam fome para poderem regressar cá com um mercedes) nem metem na mesa a possibilidade de voltar, por sentirem talvez, que aquilo que conseguiram atingir nesse dado país, não o conseguiriam atingir por cá, e Ok, toda a gente já percebeu que a “crise” é geral, e toda a gente também já percebeu que o custo de vida lá fora pode ser caríssimo e mesmo asfixiante… mas se existir uma hipotese digamos de 1 para 3 de ter sucesso numa área em que , em alguns países essa mão de obra não seja um mercado totalmente explorado, porque não tentar? E também existe um erro muito problemático e que infelizmente é típico, que é a saída do país assim que aparece uma “janela de oportunidade” sem meter os prós e contras, sem fazer uma pesquisa extensa e exaustiva sobre o assunto, e principalmente sem deliniar vários planos B.
    Atenção, não estou aqui a dizer ou classificar o país como um tasco velho, o que quero dizer é que se continua a formar muita gente para vários nichos de mercado que já estão fechados. Claro que se precisacemos cá em Portugal de, sei lá, pastores, por exemplo, eu diria que se alguem que vivesse numa metrópole e quisesse ser pastor, então que viesse para cá, tão simples quanto isso. Quando se fala do país penso que muita gente se expressa mal, que o que realmente querem mencionar é a estrutura do sistema do país… Bem, já em relação à questão da sustentabilidade da vida emocional, penso que isso varia consuante a pessoa.
    Só rumando ao desconhecido, ou por tentativa e erro,é que se fazem as grandes descobertas…. não sei, é a minha forma de ver as coisas, poderei estar errado

  10. Vítor Vieira says:

    E que disse o jornalista holandês depois disso tudo?

  11. Raquel, ainda não tinha tido tempo para te responder… tenho andado ocupado a encontrar casa em Bruxelas… mas deixo-te uma pergunta: em Portugal, como o quê?
    Bem gostaria de ficar aí, lutar aí, mas não há sequer uma réstia de esperança, pelo menos com a generalidade do povo português que não gosta cá de políticas e que a melhor forma de viver é “comer e calar” e “uma mão lava a outra” etc. etc.

  12. anton says:

    e facil por as culpas nos emigrants quando quem tem a culpa e os politicos este poste fas me lembrar o hiteler que polha as culpas nos emigrants que ate os matava e depois a pessoa que escreveu este post deveria saber mais da historia portuguesa para ver o que o politicos portugueses fazen no brazil e em angola e ate em portugal e que conte os emigrants brazileiros e angolanos em portugal nao e pressiso ser um intelectual para saber isso eu sou imigrant i so talho a quarta classe mas mas filisment nao sou sego i ainda fico com desgosto de ver portugal com os mesmo dictadores de sempre como o casvaco silva era president quando eu era um garoto e ainda continua a ser mas ser um emigrant nao me inpede de ver o que os politicos fasen no pais que eu vivo e lutar contra isso poque me faz sintir como as pessoas que sabem que a culpa e dos politicos e nao do pobre que e esplorado e roubado ate a morte a onica coisa que eu digo sobre a pessoa que escreveu este post e que es un facista e emigrantphobico e espero que morras .os portugueses vao a angola buscar o algodam esplorar as pessoas de la trazem o algodao para portugal depois vao vendelo la muito mais caro quando eu digo portuguese eu refiro me ous politicos e ricos esploradors

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