Não há tempo para tudo, claro que não há

IMAGEM 2

Uma criança foi atropelada – constata a TVI – já a GNR vai investigar um pontapé num focinho de um porco, lê-se no mesmo jornal. Não sabemos nada sobre a criança, quem a matou, porque não há passadeiras, quem vai ser responsabilizado, porque Portugal não é a Holanda em matéria de protecção dos peões, mas já há recursos para investigar um tipo que deu um pontapé num porco para o tirar da estrada. A TVI está em sintonia com o desvario dos talibans facebookianos que inundam-nos de pedidos de «socorro urgente há um menino para ser adoptado» e a foto é de um cachorro, «ajudem, alerta, estas meninas precisam de uma casa» e a foto é de dois gatos.

Folgo em saber que as associações de crianças não usam os mesmos métodos  fundamentalistas, o uso de imagens brutais para nos comover e chocar, e não nos enchem o facebook de corpos de crianças atropeladas (2000 por ano em Portugal), vídeos de brutalidades sem nome, crianças apáticas pela fome, em pânico pelas violações, desprezadas, espancadas,  no limite mortas.

Há 100 000 crianças em Portugal referenciadas em perigo e  nenhum pai sensato deixa filhos irem para a escola sozinhos no país em toda a Europa que mais atropela crianças, mas há uma manif de defesa dos direitos dos animais já marcada. A última manifestação contra o desemprego teve 400 pessoas. Não há tempo para todas as lutas, claro que não há. E esta  seita, que argumenta ser defensora dos direitos dos animais (imagino que a maioria os tenham presos em apartamentos), uma seita que recorre a métodos de mobilização sensacionalistas, na sociedade de hoje, com 1 milhão e 400 mil desempregados, com os dramas de hoje, é infame e inaceitável. Foi isso que me disse um desempregado quando escrevi sobre o tema, as minhas desculpas a ele por ter voltado a este não-assunto. Resta-nos o consolo de que a maioria dos votos deles vão todos parar ao colo do PAN, o verdadeiro representante do «direito à vida» dos animais. Como vai ser a última vez, espero, que falarei deste não-assunto deixo uma sugestão: alguém que faça uma sondagem a ver quantos eleitores do PAN votaram contra a legalização do aborto, pelo «direito à vida». Se eu ganhar oferecem-me uma dobrada com feijão branco, se os amigos dos animais ganharem  e afinal não existir nenhum relação eu ofereço uma feijoada de tofu.

Deolinda Barata é presidente da secção de pediatria social e coordena o núcleo de crianças e jovens em risco do Hospital D. Estefânia (Lisboa), onde tem assistido a situações que não surgiam na prática clínica “há 20 ou 30 anos”. “Estamos a andar para trás na história dos maus tratos. E voltámos a ver maus tratos hediondos”.

Os números não são animadores. Portugal é o recordista europeu no número de mortes por atropelamento. É neste sentido que a APSI assinala a Semana Mundial da Segurança Rodoviária alertando os automobilistas para a redução de velocidade junto às escolas.

Em 1998, cerca de duas mil crianças com menos de 14 anos foram vítimas de atropelamento, sendo que 90 por cento dos casos ocorreram dentro das localidades, provocando 39 mortes. Por cada morte, há ainda a registar cinco vítimas com sequelas definitivas.

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9 Responses to Não há tempo para tudo, claro que não há

  1. Gruul says:

    Ó Raquel, que mal é que os animais alguma vez lhe fizeram?

    A culpa da falta de mobilização dos trabalhadores desempregados não é dos activistas pelos direitos dos animais, mas de uma televisão e imprensa que aproveita a anomia de valores políticos do bloco central para fazer passar a mensagem que “eles são todos iguais”.

  2. JP says:

    Não tenho concordado com muitas das coisas que escreve.
    Mas este post é um valente murro no estômago.

    Obrigado.

  3. Anarco-ciclista says:

    Desculpa, mas… Tu agora vais passar a agregar os teus posts com o teu curriculm académico, ou isto é uma cena marada da blogsofera à qual tu és alheia?!?

    • raquelcardeiravarela says:

      É uma cena que não me assiste, estou com colegas a fazer um blog sobre o meu trabalho e fica linkado aqui, tenho que ir ver o que se passa.
      Com consideração

  4. Pedro Duarte says:

    Raquel,

    Percebo o teu ponto de vista: um revolucionário deve priorizar as lutas, dedicando o grosso da sua energia àquelas que são estruturais para transformar o quotidiano em algo que mereça a pena ser vivido.

    Mas esse ponto de vista não me faz achar que “não há tempo para todas as lutas”, desde que estas sejam necessárias para aproximarmos o mundo real das nossas (diversas) utopias. Claro que há tempo para muitas lutas!

    Só neste país somos 10 milhões; e, felizmente, estes 10 milhões têm interesses diversificados (quanto maior a diversidade de interesses mais rica é uma sociedade – concordas?) e lutas diferentes pela frente.

    Lutar para que os animais (os domesticados e os selvagens) gozem, de um modo geral, de uma vida sã não me parece propriamente ilegítimo, mesmo considerando que o combate à subnutrição (que mata anualmente milhões de crianças no mundo) ou à ditadura do automóvel (que matou se calhar tanta gente no séc. XX como a II Guerra Mundial) sejam mais urgentes.

    Divergimos provavelmente neste ponto: acredito que o mundo radicalmente novo pelo que muitos lutamos não se constrói numa luta única à qual todas as demais se deverão submeter. Não acredito num mundo submetido a uma proposta única que cala, reprime, no limite erradica, as demais. Os mundos que calam (em vez de integrarem) os conflitos julgam-se imunes à ‘história’ (ao tempo que passa para deixar a humanidade ‘outra’). Prefiro um mundo dialéctico, que aprenda a viver em tensão permanente e a incorporar todas as lutas possíveis e necessárias para inventar um quotidiano onde, POR DIVERSOS MOTIVOS, apeteça estar.

    Um beijinho para ti,

    Pedro, Alentejo

  5. na boa!e muito mais descansado 🙂

  6. Mauro Fereira says:

    Raquel, é tudo uma questão de prioridades. Eu também amo os meus animais mas costumo sempre dizer; num país onde não se cuida da crianças e dos idosos como deve ser como é que estão à espera que se cuide dos animais?

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