Apartidarismo ortodoxo

“Os políticos/partidos são todos iguais”. É frase comum hoje em dia. Face ao comportamento dos 3 partidos (PS, PSD e CDS) que detiveram o governo nos últimos trinta e tal anos de democracia e que consistentemente combateram as conquistas de Abril, hipotecaram a economia e soberania nacional, e conduziram uma contra-revolução impondo políticas de direita, é uma reacção, que como um reflexo admito compreensível. Mas um escárnio que após ponderação, consideração do efectivo leque partidário Português e sobretudo reflexão sobre o que significa ser “político” é desmontável, na minha opinião insustentável, e um afronta aos muitos que fazem política como cidadãos.

É uma frase e uma atitude que tem efeitos perversos, pois promove o desânimo, a desmobilização e a desunião, e que serve de arma contra organizações sociais que têm combatido as políticas atrás referidas e os partidos por elas responsáveis. Há quem defenda o apartidarismo integrado numa visão pós-moderna do movimento social, horizontal (ideia que não me importa agora aqui debater.)

Muita embora este efeito ideologicamente desmobilizador, tal é a sua prevalência e tal o descrédito da troika partidária nacional que nos últimos anos algumas iniciativas tendo dado destaque, nas suas convocatórias, ao facto de serem ‘apartidárias’ têm logrado mobilizações notáveis. Não obstante, tal emblema, usado como motivo de honra, como se fosse um elemento identificador e esclarecedor dos seus princípios, não deixa de ser revelador de uma grande ingenuidade política. Parecendo poder servir como congregador de pessoas insatisfeitas com a “classe política”, exclui as muitas pessoas que sendo militantes de outros partidos ou organizações sociais (que por sectarismo são misturadas num mesmo bolo) são as que de forma organizada têm resistido a dita contra-revolução, lutado por uma alternativa, bem identificada nos programas das suas organizações e discutida entre os seus membros.

Creio ser sinal de evolução positiva que, por exemplo, a plataforma “Que se lixe a Troika” tenha na sua mais recente convocatória para uma manifestação no dia 2 de Março apelado «A todos os cidadãos e cidadãs, com e sem partido (…) todas as organizações políticas e militares, movimentos cívicos, sindicatos, partidos, colectividades, grupos informais, apelamos a que se juntem a nós.»

Mas eis que hoje vejo com espanto um evento no Facebook que apela a uma nova revolução de Abril e convoca dois eventos, em Lisboa e no Porto, à margem dos eventos anualmente organizados pela Comissão Promotora das Comemorações do 25 de Abril (CPC25A). Evento no qual o grupo se proclama como APARTIDÁRIO [sic, assim mesmo, com as maiúsculas].

Qualquer grupo é livre de convocar celebrações do 25 de Abril. Não é isso que está em causa. O que me choca é a convocatória implicitamente considerar que as iniciativas organizadas pela CPC25A são ‘partidárias’, e como tal presumivelmente “contaminadas” e não-inclusivas. Iniciativas que ao longo dos anos têm sempre ido além do mero assinalar da efeméride, actualizando os valores dessa revolução ao momento político e social corrente, tornando-as efectivamente numa manifestação.

Como se a CPC25A não fosse uma plataforma aberta. Um busca rápida na internet deu-me acesso ao apelo à participação do CPC25A de 2009, subscrito por:

Associação 25 de Abril • Associação Fronteiras • Associação Intervenção Democrática (ID) • Associação Juízes pela Cidadania • Associação Os Pioneiros de Portugal • Associação Portuguesa de Deficientes • Associação Projecto Ruído • Attac • Bloco de Esquerda (BE) • Comissão Coordenadora das Comissões de Trabalhadores da Região de Lisboa (CIL) • Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses – Intersindical Nacional (CGTP-IN) • Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto (CPCCRD) • Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC) • Ecolojovem “Os Verdes” • Frente Antiracista (FAR) • Inter Jovem-CGTP • Jovens do Bloco • Juventude Comunista Portuguesa (JCP) • Juventude Socialista (JS)• Movimento Democrático de Mulheres (MDM) • Movimento de Renovação Comunista (MRC) • Movimento Unitário de Reformados, Pensionistas e Idosos (MURPI) • Movimento dos Utentes de Serviços Públicos (MUSP) • Partido Comunista Português (PCP) • Partido Ecologista “Os Verdes” (PEV) • Partido Socialista (PS) • União Geral dos Trabalhadores (UGT) • UGT Jovem • União dos Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP) • Diversos independentes (depois ali listadas)

Ora admito que haja gente que não se reveja em nenhuma destas organizações, que não se identifique com quaisquer das individualidades, que não se identifique de todo com a forma das iniciativas realizadas, que não ache suficientemente simbólico que em Lisboa se marche na Av. da Liberdade e ache que se devia ir até à Assembleia da República, até que tenha desdém por todas essas organizações e pessoas, incluindo as muitas outras pessoas anónimas que não pertencendo a nenhuma das organizações promotoras se revêem e participam livremente nas iniciativas. Mas que face à abrangência, diversidade, e inclusividade da Comissão Promotora e sobretudo das milhares de pessoas que participam nas iniciativas, que haja quem se sinta intitulado a insinuar que são iniciativas “partidárias” em contraste com a sua iniciativa “APARTIDÁRIA” é uma afronta política e intelectual, que reforça o carácter divisionista de quem propõe iniciativas com este farrapo de bandeira.

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