"Reality", de Matteo Garrone

Depois da máfia em Gomorra, Mateo Garrone assumiu o entretenimento televisivo e os reality-shows como ponto de partida do seu último filme, grande prémio do júri de Cannes 2012. Ponto de partida, mas não de chegada… em Reality o Big Brother é o eixo central, mas não entramos na casa, nem nos bastidores, não acompanhamos qualquer traço da organização e não há qualquer denúncia da imoralidade ou da manipulação perversa neste tipo de concursos. Para filmes do género, sobre o circo mediático e o lado podre da TV, nada como ver o óptimo Quiz Show, de Robert Redford. Aqui, neste filme italiano, a perspectiva é exclusivamente externa, seguindo o sonho de um candidato a concorrente.

Luciano gere uma banca de peixe num mercado de rua napolitano e, para ganhar uns trocos extra, tem um negócio paralelo de compra e venda de robots de cozinha. A eventual participação no Big Brother surge como um caminho idílico de acumular, de forma rápida, fama (Enzo, antigo concorrente do programa, é uma referência) e dinheiro fácil. Inspirado pela opinião de amigos e familiares (excepto a céptica e clarividente tia), que chegam mesmo a recebê-lo de forma apoteótica no seu regresso de Roma após a segunda fase de audições (a fama imaginária, filmada de forma magistral), Luciano ganha uma convicção inabalável de que, mais tarde ou mais cedo, o telefonema decisivo chegará. Quando a data de início do programa se aproxima e as dúvidas o assolam, a confiança dá lugar à negação da realidade, a uma fixação sem limites, ao desinteresse por tudo e todos os que o rodeiam e a atitudes irreflectidas e profundamente excêntricas. Mas será a persistência compensada?

Pela sinopse anterior, é fácil comparar o drama de Luciano com o de Sara no ultra-depressivo Requiem For a Dream, do ponto de vista das consequências secundárias de auto-destruição que o pior lado do show televisivo pode provocar nos espectadores. Mas aqui não há a violência psicológica do filme de Aronofsky, o contexto é muito mais suave e há até um certo tom cómico. Diferente, mas igualmente marcante, porque Garrone provoca-nos uma afectividade óbvia com a postura pacóvia e interesseira, mas ao mesmo tempo ingénua, do protagonista. A propósito, não deixa de ser uma curiosa ironia que a ambição desmedida de passar meses fechado numa casa seja interpretada por… um preso, Aniello Arena, a cumprir pena perpétua por crimes relacionados com a mafia e que encontrou a redenção através da representação.

Outro pormenor delicioso é a música, da autoria do consagrado Alexandre Desplat. Num percurso recente muito profícuo, onde se incluem os nomeados para os Óscares Argo Zero Dark Thirty, o compositor francês foi também o responsável pela banda-sonora de Moonrise Kingdom, com quem há umas subliminares semelhanças. Se aí o som pautava a curiosa relação entre dois miúdos do imaginário encantado de Wes Anderson, em Reality há também uma espécie de fantasia etérea, quase infantil, que é complementada na perfeição pelo trabalho de Desplat.

Para rematar os trunfos de Reality, surge um final tão excêntrico quanto criativo, entre a tragédia e a comédia, entre o sonho e a realidade, entre a ilusão e o desencanto. É a derradeira confirmação de que, à margem da tradicional euforia em redor dos nomeados pela academia de Hollywood, o filme de Garrone será, neste início de 2013, um dos grandes acontecimentos de cinema a estrear em Portugal.

8/10

(texto originalmente publicado no site Arte-Factos)

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2 Responses to "Reality", de Matteo Garrone

    • João Torgal says:

      Interessente perspectiva sobre Nápoles e os efeitos globais do Big Brother, o suposto lado ídílico do grande irmão do Orwell

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